Lírico

A minha foto
Greenland
Toda eu sou alma. Todo eu sou frio, branca como a neve. Toda eu sou sonho, céu, nuvem. Toda eu sou girassol. Toda eu serei tua, se assim o entenderes.

8 de maio de 2010

Ilusória Perfeição

És só mais uma fonte de inspiração furada. Não és nada, nem ninguém. De tão vasto e inverosímil que te tornaste agora nem sei para onde ir, nem sei a localização das palavras. O quarto permanece escuro. O livro bordado com palavras subtis forma uma muralha verdejante de um déjà vu infértil e perdido no tempo.

Vi-te desaparecer por entre as minhas mãos e não mais pude contemplar o escuro dos teus olhos, tocar a tua macia face e abraçar-te. Tudo era bom, perfeito, um lindo dia com céu azul. E um dia, todas as palavras se foram juntamente contigo. Só o vazio preencheu o espaço que antes ocupavas; sem culpas, sem remorsos, sem raiva nem previsões do futuro.

O livro estava a meio. No meio aberto ele esperava um preenchimento de algo fantástico e único. As folhas brancas levantavam com o vento e melodizavam uma harmonia quase divina que quase escreviam sozinhas o grande conto perdido de uma inspiração de olhos negros e fugitiva. Inspiração que agora perdurava por entre ideias mortas. A caneta jazia sobre o papel. Um corpo imóvel agora sem afazeres sem compromissos.

Não quero magicar sobre o tempo que se perdeu a escrevinhar por entre linhas tortas o exemplar ser que parecias na verdade ser. O livro continua amplo e sem vista a tornar-se finito. Há memórias que nem o tempo destrói; há vidas que não conseguem ser completamente retiradas do nosso pensamento. Talvez isso seja apenas uma longínqua recordação remota sem razão de continuar a ser vivida ou possivelmente nenhum de nós esteja ainda preparado para o grande final, onde mais ninguém se verá reflectido noutra grande pessoa.

Desoladas e sem valor são as minhas palavras neste momento. Já nem para falar encontro as palavras certas. Pareço um papagaio, apenas me limito a imitar e palrar. Tudo começou a ser diluído pela chuva. O teu grande sentimento era falso. Podia ter acreditado em muitas das coisas que me disseste. Tudo falsidades! Tu não és como eu desenhei. Tu nunca serás como eu desenhei. As tuas palavras eram sujas e rancorosas. Guiar-me-ei pelas minhas ideias por mais confusas que sejam. Mas não volto a usar palavras de pedra e dolorosas como as que tu me dizias.

Disse-te as mais bonitas palavras que alguma vez alguém ouviu da minha boca, desejei-te as melhores sensações do mundo, senti por ti o que nunca tinha sentido por ninguém. Destruis-te sem fundamento aquilo que um dia me pediste para construir a teu lado. Nada do que me dizes agora tem aquele significado especial que antes possuía intensamente. Mas os teus olhos ainda não são completamente estranhos aos meus. Reconheço-os perfeitamente: o brilho, a cor, a luminosidade…

O teu olhar penetrava-me na alma. Por momentos sentia-me leve. Levantava voo. Íamos a sítios que ninguém imagina. Em poucos segundo eu vivia a melhor aventura da minha vida. Agora não passas de um capítulo encerrado deste livro. Fechado a sete chaves, com sete selos de pedra enterrado na encruzilhada que é a minha vida.

De:
* Bárbara Patrício
* Ricardo Cunha

1 de abril de 2010

Morfologia existencial


Vejo o chão a sumir-me dos pés, vejo cada pedaço a desvanecer tal e qual como eu. Caio num buraco fundo, profundo, sem eira nem beira. O tempo passa e o fim parece nunca mais se abeirar. Fecho os olhos e encerro as visões a míseros passados, a tristes desaparições.

Tento tocar em algum objecto que me pareça familiar, algo onde me possa fixar e amortecer a derradeira queda. Nada! O que defronto é nada: um nada vazio, indistinto e gélido. Tudo cai simultaneamente com aquela criatura que parece não ter já uma concepção de altitude, de duração, de extensão.

Embato num solo que parece não querer me deixar poisar. Saltito e percorro o mesmo labirinto desde o chão até ali e dali até ao chão. Aquilo me envolve em mais um pouco de desespero e me embala num sono profundo, num doce jogo de sentimentos.

Adormeço. Acordo. Noto que estou finalmente deitada no chão, naquele mesmo chão que parecia não me desejar ali. Levanto-me. Vejo uma minúscula porta, bem lá no fundo, bem iluminada, repleta de luzinhas cintilantes que punham meus olhos a brilhar. Corri, mais e mais e melhor. A porta parecia nunca mais advir: eu jamais me reconciliaria com aquele bendito portal. Circulei, caminhei, consumi todas as forças e só descontinuei quando decaí novamente no chão, de rastos, sem eira nem beira.

Idealizei que me encontrava no firmamento e minhas mãos achavam-se limpas, lisonjeadas e perfeitas. Não tinham ferimentos, nem arranhões daquele desastroso embate. Aquilo que me desprotegera, afinal, também sabia amparar-me. A minha figura… nunca antes tinha estado tão amena, com uma expressão tão calma e ternurenta. Serena, desabrochei o olhar. Não existia céu, não havia perfeição: havia um amontoado de triste sofrimento. Olhei para o lado, investiguei todos os contornos espaciais. Nem podia acreditar: a porta residia mesmo ali. Não era necessário correr, percorrer grandes distâncias. Ela achou-se sempre ali, permanentemente próxima de mim.

Entrei, regressei a casa. Estava novamente livre de perigo, acordada de um sonho dentro de uma ilusão. A vida é isto: uma diminuta visão dentro de outra qualquer ficção; é o cair num buraco sem fundo e seguidamente prosseguir, lutar até não poder mais a fim de desaparecer daquele estado de espírito tão inóspito. Pelo meio, temos sempre outras lembranças, boas oportunidades e brandas imagens passageiras. Temos pessoas, temos reminiscências, temos universos, temos existências!

E ela é consumada disto: um entrelaçado enigma com assento no simples dilema de abalar ou estacar, apressar ou afastar-se, perder ou conquistar!

6 de fevereiro de 2010

Lar de papel


Cada vez que aqui me encontro, uma imensidao de tudo me transborda; talvez porque contenha um pouco de tudo neste já muito de nada. Olho as vivas cores de um espectro semi-cerrado, sinto o suave aroma a terra molhada e escuto o constante chilrear dos voadores. Um fim de tarde mas nunca um fim de vida…

Sento-me e uma luz passageira me aconchega, aquecendo-me intensamente. Ergo o meu olhar, contemplo o céu azul-bebé sorrindo para mim, algodão doce com sabor a chantili e minúsculas criaturas pairando. Aqui encontro um refúgio. Melhor dizendo: aqui sinto-me realmente em casa, envolta num verdadeiro conceito de lar. Na verdade possuo demasiados lares: minhas casas, memórias, passados e isto. Isto a que chamo fuga, casa das horas vagas.

Penso e repenso. Dou um rumo a minha inteligência, largas à minha imaginaçao e perco o rumo que parece não andar nem desandar. Muitos perderam a esperança em eu algum dia ser alguém; outros me prometem algo que nunca cumprirão mas com a mesma confiança no falar como se tivessem as certezas que eu não tenho do amanhã; ainda há aqueles cujos rostos alegres me difundem algum deste sentimento e me deixam totalmente viva.

Minha alma não está cheia e meu pensar vazio continuará, dito isto na boca de muitos até parace mentira. Se o pensam, estão triangularmente enganados. Entre este meu ser e o que o envolve existe apenas uma rotura: diferenças de concentração abismais.

Estarei eu à espera que alguém me difunda ou terei eu de tornar a difusão possível em alguém? Será que já difundi tudo o que tinha para o exterior e fiquei plasmolizada ou é o lado de fora que não está preparado para me transbordar? Seja o que for, está na altura de retribuir, me preencherem o espaço que resta, se ainda restar. Não que reste muito já.

Vejo este local igualmente vazio, tanto quanto eu. Minhas lanças se baixam e mergulho em escuridão, num sono profundo. Como que por magia, isto se representa em minha mente e imagino neste lugar uma família, coisa que já á muito passou. Crianças brincando nos rochedos, fazendo papas de ervas daninhas, colocando um majestoso ramo de flores campestres na jarra da mesa de jantar para surprender a mãe.

O homem da casa esforça-se para que consiga dar à sua família tudo o que ela carece. Constrói belas paredes de cimento e blocos, aperfeiçoa as linhas e dá uns últimos retoques no que será o seu completo lar. A mulher cozinha à luz da lareira pensando em saciar as bocas famintas do marido cansado carregando um dia inteiro de trabalho árduo e duas crianças já fartas de brincar, rir e imaginar.

A noite cai e só me apercebo dos mimos, dos aconchegos. Como dever de progenitora, reconforta suas crias em suas camas e lhes narra uma daquelas eternas histórias de embalar. Por fim, as pequenas adormecem e concedem à noite mais duas mentes férteis, mais duas lindas visões de um sonho em comum. A mãe se deita ao lado do pai e ambos sorriem apaixonados. Um beijo de boa noite se solta e um abraço se dá. Adormecem juntos, unidos para sempre por um amor que nunca mais acabará, por algo tão imaginário quanto eu.

Tempos que passaram cheios de vida… agora o ser sumiu-lhe e o que superficialmente se vê é um amontoado de madeira resguardando memórias. Sei que elas não mais sairão dali, daquele maravilhoso lugar. Sinto-me a viver aquelas vidas, ponho-me no lugar de cada um deles e penso que mesmo quando a vida lhes reservava o pior dos desfechos, eles continuavam unidos. Era isso que os fazia fortes, era aquele lar que os tornava uma família e aquele amor que os fazia transbordar na alegria e nos sorrisos.

Daqui me retiro um pouco mais cheia, de respirações, de conversações e de emoções. Entrei de olhar derrotado, saio com um triunfo cintilante, confiante em mim, mas ainda com muito pouco por conquistar, grandiosamente desconquistada. Uma certeza me preenche, me transborda e me cativa a seguir caminho: sei que não estou sozinha, continuas comigo.

5 de dezembro de 2009

Poeiras do não ser



O vento trouxe-me para ti como leva uma areia ao mar. Não sei que diga, que faça. Gesticulo pequenos gestos quedos e mudos. Não sei a resposta, não: eu não reconheço a chuva. A areia se envolve no mar e se torna parte de seu interior, parte da vida de quem tão grande era, tão majestoso é. Que significam esses grandes olhos cor-das-trevas que me enfeitiçam e me levam à tua batalha?
Queria certificar-me do que aqui dentro se remexia, se criara a partir do tempo. Presa debaixo de uma rocha, perdida na friorenta camada de pedregulhos dispersos ao longo de infinitos pares de começos. Aí, teus espelhos reflectiram toda a escuridão.

Agora percebo a cor de teus olhos: possuem as trevas que absorveste do lugar onde me encontrava. Tudo se torna demasiado claro. Já não sei dizer que não sei e nem sei se sei se te dissera mas direi o que souber e daí só quero que me digas o que te vai na alma, no pensamento em questão.

Vou parar de dizer não: enviar as sombras para longe, bem para dentro dos teus olhos. Cada vez que o teu olhar me alcança sou purificada, elevada a rainha, tua rainha. O vento levará o tempo e enquanto houver movimento haverá circunstância. Segue a estrela polar, rema para norte, no cimo da montanha me encontrarás de alma vazia, já sem inspiração ou pensamento algum.

Preencher-me-ás. Te ficarei agradecida, te reconhecerei o privilégio e serás honrado e para sempre bendito. Viva o tempo que me levou à escuridão; viva o sol que me trouxe de novo a calmaria e o cheiro a água salgada. Viva eu, viva tu, vivamos juntos. Não para que a morte chegue: para que a vida não passe facilmente despercebida entre nossas memórias.

Se um dia chamares por mim e eu não tiver minhas mãos envoltas nas tuas, olhas as estrelas, entrelaça-as e escreve o meu nome no céu. Eu especularei e irei a correr para teus braços. Gostava que fossemos um, apenas um e só um ser. Assim sabia que nunca me irias perder. Assim sabia que nunca te iria perder. Sei que terei sempre o teu pensamento, o teu refúgio, o teu amor a meu lado.

Não voltaríamos a sucumbir. Seria difícil desmoronar-nos. Estaremos juntos, estaremos fortes, estarei impune ao mundo das trevas que absorveste com esse teu olhar radiante.

Só te peço: Leva-me para longe de mim, para bem perto de ti!

7 de novembro de 2009

Arco-íris


De tudo o que disse, nada foi em vão. De tudo o que sonhei? Repito: nada foi em vão. Nada vai e vem sem aviso prévio. Tudo tem uma razão de ser, uma simples abreviatura designada por sim e retorquida por uns quantos “nãos”. A vida é feita disto; esperas e desesperanças trancadas em mentes possuídas pelo pó dos maquiavélicos fantasmas que nos consomem, que nós próprios criamos e deixamos dilatar.
Não esperes, não desesperes! Vem para junto de mim afastar estas labaredas que me transformam no fogo reflectido em teus olhos. Vem! Vem cruzar o meu caminho com o teu e atravessar o rio de tempo que me atravessa.

O que digo pouco me importa, pouco te deve importar. Mais do que as palavras existem silêncios; mais do que rimas, mais do que insignificantes rumores vive em mim um entrave constante em te ter e te perder. O medo consome os fracos, a coragem apenas cabe nos mais fortes! As ilusões diluem-me os pensamentos, prendem-me o simples malabarismo de sentir, de fantasiar os olhares e as brincadeiras infantis, os risos e as palavras doces ao ouvido.

Quero voar, correr e não mais parar! Anseio a vida e ignoro os dias que somam à minha morte. Olho o arco-íris e esse espectro esperançoso difunde o que mais preciso de sentir, o que de mais belo poderia encontrar. Encontrei-te! És o arco-íris e em cada cor representas mais que uma marca, mais que uma síntese das memórias que em ti e só em ti serão gravadas. O fim está longe de começar; o inicio, esse, está muito longe de chegar ao fim.

Desenho: Alexandra Ramos
Texto: Bárbara Patrício

19 de setembro de 2009

Rodopiantes contrastes lunares



O escuro brilha. Cintilante conjunto de cinzentos baralhados num só contraste, numa só estrela. Imensidão de nada, vazio interminável. Assim, se descreve Clara. Um nome tão luminoso se apaixonou por tão dissemelhante alma. Toda ela era uma escala de brancos e pretos. Para além do nome, sua pele se assemelhava a um árido e desconhecido ponto do universo. Já seu cabelo era negro como carvão: o sol o acariciava, ela o eclipsava.

A alma era feita de pedacinhos agrafados, colados, rasgados e vagabundos ao vento, duas metades numa só. Se nunca nos tivéssemos movido até à Lua poderíamos estuda-la aqui mesmo, em pleno planeta Terra! De um lado, a luz não chegava sequer para aquecer um terço de si; não daria nem para descongelar a meia tonelada de sólido que lhe mataria a sede de vida. Existia de tudo. Pelo menos de tudo o que de pior no mundo desembarcou; aliás, na Lua aterrou.

Na outra parte de si, o caso mudava de figura. Naquele lugar, ela era a mais clara de todas as Claras. A luz solar era toda ancorada naquele lugar que a aquecia. Essa alma lunar não só rodopiava em torno de si mesma como em volta de seu coração. Dependentemente da parte que para ele estivesse virada, assim seria o seu humor, sua maneira especial de sorrir.

Nunca o organismo de alguém fora tão espacial, tão marciano ao ponto de desconhecer seu próprio conteúdo original. Refiro-me a memórias. Em vez de as guardar, expulsava-as, mandava-as embora e proibia-as de entrar. Já nem falo de sentimentos porque esses aí eram escolhidos a dedo depois de vistas as unhas em revistas de moda. Os contrastes se proporcionavam e o equilíbrio se dava: em vez de duas cores distintas porque não misturá-las, torná-las numa só?

Seria o solucionar de uma vida! Foram embora os claros e escuros; tudo se juntou e se acinzentou. O problema da anormalidade teria assim um fim previsto para breve. Mas, embora cinzenta, não se deixou de ver a preto e branco, igualzinha a uma sala de cinema dos anos 80...

Seu blog é viciante!



Agradeço à Erica, do *Luna*, e ao Prof. Sérgio, do Historico-Filosoficas, a atribuição deste prémio ao Feelings.
Agora, devo, assumir três compromissos, para além de publicitar o prémio “Há blogues viciantes” e endereçá-lo a dez outros blogs.

1. Tentarei ser mais arrumadinha, ordenando melhor as respostas ao expediente e ao atempado arquivamento, no escritório, e com coisas pessoais em casa;

2. Tentarei ouvir mais e não insistir na minha opinião mais que o estritamente necessário evitando conflitos espúrios;

3. Tentarei não me importar com os feitos e defeitos do meu Porto;

Confessados publicamente os pecados, só falta mesmo enunciar os blogs viciantes. Entre tantos merecedores:

4 de setembro de 2009

Seu blog é mágico !



A música mágica: Metallica - Nothing Else Matters

O filme mágico: Idade do Gelo

A viagem mágica: conduzir uma nuvem e percorrer os céus

A maquilhagem mágica: a simplicidade


5 blogs mágicos:

- Beatriz Araújo

- Cátia Barbosa

- Zézinho

- Michelle

- Emma

Obrigado Raquel e Érica pelo miminho :D

1 de setembro de 2009

Vida consumida por ódio, levada pelo demónio!

"Para ser sincera, não tenho memórias. Pelo menos de uma vida. Fui deixada com o mundo no limiar da infância. Não que a culpa fosse deles. Um qualquer embriagado infringiu todas as regras de trânsito. Muito para além dessas simples regras mundanas, cometeu o pior pecado, o maior acto de ignorância! Num segundo a vida lhes fluiu do corpo, um embate os projectou para fora, bem longe dali. Sofri mas ainda sofro!
Era pequena e não entendia muito do que entendo hoje. Posso não ser grande mas sou suficientemente consciente do meu ódio, do desejo que tenho em encontrar por fim esse homem. Esse dia iria chegar… por fim, finalmente chegou. Pude contemplar o rosto descaído daquele inconsciente assombrado por fantasmas do passado, por erros irremediáveis, por um peso na consciência que o acompanhará até ao seu fim! Me implorava por vida, me questionava a identidade, o porquê…
Queria dar-lhe de mão beijada o destino que concedeu a meus progenitores e toda a dor que por mim foi sentida. Fazia-lhe pontaria ao orgão digestivo que jamais iria digerir. Não o mataria de uma vez mas aos poucos… o ácido lhe iria corroer a carne, agonizando-o! Não chamaria isto de vingança, talvez ajuste de contas.
Sentei e observei aquele triste fim. Sentia-me concretizada! Até que a morte lhe transpareceu pelos olhos… olhei-o uma última vez e aí a felicidade escapou-se assim como a vida.
Cheguei ao limite da compreensão, abri meu ser e expandi o olhar: naquele momento foi-me concedido o vislumbrar mais claro de todos. Uma vida não traria outra quanto mais duas! O rio era testemunha de meu acto cruel, a água corria e levava consigo o sangue. Talvez transportasse também meu pecado. A ponte me convidava a subir, o líquido me iludia a mergulhar. Olhei derradeiramente o céu e pedi desculpa aos anjos: perdão pela raiva, pelos actos, pela idiotice… e mergulhei. Morri exactamente como meus pais: um violento embate nos esmagou a vida, nos trancou o coração… "
Açucena escreveu a sua própria morte mesmo quando a vida ainda lhe corria nas veias. Seria por muito pouco tempo. Escreveu, desapareceu e concretizou o fim da escrita, da sua própria história!

27 de agosto de 2009

Esconde o sono, realiza um sonho!

Olha-me nos olhos, digitaliza-me a mente. Agarra minhas mãos e sente um leve arrepio, um breve desvanecer. Leva-me contigo para longe, ainda hoje. Encurtei as palavras para que mais fáceis se tornassem de ler. Assimilei passados afim de obter (re) começos. Pensei, dormitei, sorri e chorei… Uma ideia surgiu, um sentimento cedeu finalmente: queria tréguas!
Pedi-te o mundo para que o pudesse virar do avesso. Questionei-te sobre a luminosidade lunar mas a Lua supostamente não reflectia, nem interessava. Teria de esperar, era ainda bem novinha e cheia demoraria a ficar. É um ciclo vicioso este de morrer nascendo, brilhando sumindo!
Realmente falei-te dos anéis de Saturno, na esperança que coubessem num dedo. Não apenas calaste, viraste costas! As palavras não te flúem. Odeia-las por mostrarem o que não queres ver, o que irreversivelmente se perderá!
Haverá fantasmas em Mercúrio? Talvez carbonizados demónios. Pensando bem, só sentes no Ártico: onde a dor congela e entra em esquecimento. Não te recordas é que congelada, ela permanece eterna. Os calorosos diabretes te perseguem fazendo acontecer uma estrondosa dança de descongelamento! Amenizar tem os seus perigos mas as vantagens compensam. Agora que me debruço no fogo reparo que raramente deixaste de ser um bloco de gelo.
Frio, sólido, aprisionado, sem palavras… fecho os olhos na esperança de saber a verdade, a sonhar com o dia em que deixarás de ser um simples vento gelado que me aquece e arrefece. Gotejas agora, derretes depois. Escondes-te no infinito do oceano para que não mais te possas fazer sentir. Grita desejos, afirma teus quereres! És alguém, demonstra-o! Liberta-te das redes que prendem tua alma às profundezas daquele inferno! Sobe a montanha, respira o ar rarefeito e sente o bater exagerado de uma bomba que tende a não parar: acima de tudo, sente!

26 de julho de 2009

Maré de tempo...

Ela não era muito diferente dos raios de sol até então lançados sobre a Terra. Ele conseguia dar-lhes ainda mais brilho. Eram partes integrantes do mesmo ser, eram bocados de um todo. Possuíam-se, ambos se dominariam até a um dia chamado “sempre”. Tudo o tempo traz e tudo ele leva de volta. Os olhares e sorrisos, as alegrias e aquosas tristezas… quase tudo veio e não mais voltou. Tudo menos as memórias que serão recordadas eternamente, para além dos limites da compreensão da própria existência.
Elsa escreve e chora: lacrimeja porque revive os pedaços partidos de um todo que o tempo ainda não levou. Nem irá levar. Tempo será sempre resumido a meros segundos que lentamente passam ofuscados num senão. E enquanto que as horas voarem, os bocados partidos levitarão. As breves escrituras que molda em papel ondulado retratam a manhã que ela nunca esquecerá. Os raios luminosos rasgavam o céu e bombardeavam em paz. O seu cabelo reluzia e em seus olhos se poderia desvendar uma esverdeada fauna. Este seria o dia do todos os dias, o primeiro e derradeiro dia.
A vergonha o invadia mas a vontade o incentivava a fazer o tão esperado pedido. À beira-mar eles conversavam, riam e contavam passados. Até que se olharam… se fixaram nas palavras silenciosas aí espelhadas. Seu coração batia num ritmo embalador com as ondas e o dele… simplesmente deixou de bater. Antes que tivesse feito qualquer pedido, muito antes dos silêncios serem quebrados. Ela o olhou mas em seus olhos já não havia sinal de vida. Entreabertos, eles anunciavam com delicadeza a sua chegada ao reino dos céus.
Agora, Elsa se debruça em pranto e se diminui perante uma dor que o tempo ainda não conseguiu levar. A consciência lhe rói pelas palavras: por aquelas que não foram ditas e aquelas que foram deixadas por dizer. Tenta seguir, descobrir o encanto das manhãs calorosas mas o seu brilho se foi e todos os seus encantos perderam a aparente função. Segura na caneta, concentra-se no papel e chove em sua própria casa: uma chuva de lágrimas inocentes no silêncio da noite. Tudo o tempo traz mas será que tudo ele leva?

19 de julho de 2009

Selo "Olha que blog Maneiro!"


Regras:

1 Exiba a imagem do selo "Olha que blog maneiro"
2 Poste o link do blog que o indicou
3 Indique 6 blogs da sua preferência
4 Avise seus indicados
5 Publique as regras
6 Confira se os blogs indicados repassam o selo e as regras

Zézinho, de José Silva me seleccionou

Historico-Filosoficas , de Sérgio Morais
cogitar, de Maneul Afonso
Pensamentos constantes, de Diego Monteiro
*LuNa*, de Érica Machado

17 de julho de 2009

Um sonho apenas!

O olhar desmorona-se, a consciência entra num sono profundo. Do presente nada tenho a dizer, do futuro pouco mais tenho a acrescentar. Tempos que fazem anos, séculos que em breves segundos se vão. Inconscientes nascemos, inutilmente vivemos e tristemente partimos sem deixar qualquer rasto de glória. Tenho vagas memórias, pedacinhos de céu guardados em mim. Nada do que possa imaginar se pode igualar a isto, uma vida destruída, um sonho escondido.
Mas paremos de falar de passado. Agora só o escasso futuro importa. Sara já nem de últimos falava. Receava o dia da partida tanto quanto o dia da própria chegada. Decerto que não iria desaparecer tristemente: possuía um cantinho daquela correria, um pedaço daquele lugar só seu e um maligno gene, uma herança maldita. Entre picos e planícies a sua vida se ia esgotando, em contagem decrescente. Sempre sonhou em dar utilidade às cordas vocais mas sua belíssima voz apenas entoava aquele quarto escuro onde as partículas de oxigénio lhe atribuíam salvas de palmas infinitas. Sonhava esbatida com a noite em que subiria a um palco com os seus longos cabelos apanhados, encaracolados. Na sua meninice, a alegria contrariava tudo o que de mais negativo lhe fosse proposto. Anos passaram e tudo se evaporou: sonhos, vida, alma, coração!
Jamais parou de lutar. O que mais desejava não era ficar ali mas sim ir em paz e na companhia do Senhor! O caminho seria longo, a recompensa seria ainda maior. A dor iria acabar, o sofrimento levemente se desentranharia dela. Uma noite, na escuridão do agora e sempre seu lar, Sara adormeceu para nunca mais acordar. Nem sorriu, nem segundo lhe deram para libertar uma pura lágrima, nem num momento lhe concederam o prazer de voar. E assim foi, caminhou por uma longa planície e desapareceu no reflexo do sol, o reflexo de um diamante…

4 de julho de 2009

Perigosos segredos…

Tardes de Inverno, facas afiadas, geladas picadas turbulentas, lágrimas miudinhas cristalizando a dor…
Noémia desgastava um pouco mais os dedos, enlaçava num embaraçante jogo de linhas redondas bem preenchidas de espaços vazios. Sentada à luz da lareira, esperava e não se cansava de perder seu tempo em tão desgostoso trabalho. As pérolas cristalinas escorridas de seus fontanários espelhados eram lentamente absorvidas pelo pano carente envolto em tão poucas mãos.
Nunca foi senhora de inovações: rotineira e de relógio certeiro lavava, cozinhava e varria o chão sem vestígio de partícula. O movimento era pouco. De muito aquilo não tinha nada. Anoiteceu. O vento uivava ao desafio com a chuva chicoteando o vidro da janela de seu quarto. É aqui, neste momento só seu, onde é ela a rainha, que a sua memória lhe permite buscar os mais íntimos segredos. A sua pele era vidro e seu amante cristal. Seu marido era vento e minha água seu beiral.
António nunca soube o quanto ela gostara dele. Assim, o Sr. Anjos, de tão angelical ser denominado em terra, poucos louvores conseguiu no céu! Seu fígado perdera a função mesmo antes de se casar e a partir daí, deixou mesmo de funcionar, despachando as partículas exageradamente alcoólicas.
Comida feita, roupa lavada, amor esperando à porta… Que mais se poderia desejar? Uma bela garrafa do melhor vinho da região pois é claro! Amor? Fictício! Isso não era coisa para se demonstrar!
“ António Manuel Gomes dos Anjos aceita Noémia Maria Mendonça Gonçalves como sua esposa e promete ama-la e respeita-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte vos separe? “
Promessas desfeitas num descortinado piscar de anos. Ambos se voltaram a enamorar: ela pelo vizinho, ele pelo seu eterno vinho. A desgraça ocupava aquele lar, a vergonha o fazia levitar. Um fim, uma derradeira despedida, uma leve carícia, para sempre um olhar fechado… Pouca sorte teve António, o vizinho Manuel não lhe pôde sorrir. Evaporaram ninguém sabe como, arderam nas profundezas do Inferno, não viram mais nada com aqueles olhos que a terra havia de comer… e comeu!
E ali, debruçada nos lençóis saudosos do toque de um homem, recostada na cama, se lembrava do triste destino que lhes tinha entregue: a eles e a ela! Até a mais superficial das mulheres esconde segredos mais profundos que oceanos, impossíveis de revelar… Também Noémia tinha os seus!
“ Oxalá estivessem a descansar junto do Senhor, oxalá Deus me perdoe este terrível pecado, esta horrenda mentira. ”
Peso de consciência, vidas aniquiladas no seu inverso. Um olhar diz tudo, um gesto resume a nada. Nem todos os segredos possuem a sua mísera ausência de mentira. Este tem apenas uma cumplicidade de almas perdidas, devastadas a puro e duro. Ela continua aqui, viva e de consciência basáltica, bem perto dos seus mais queridos. Eles encontram-se bem longe, nas mãos de um justiceiro. Os seus actos os resumiram a pó, que a terra havia de comer… e comeu!