Lírico

A minha foto
Greenland
Toda eu sou alma. Todo eu sou frio, branca como a neve. Toda eu sou sonho, céu, nuvem. Toda eu sou girassol. Toda eu serei tua, se assim o entenderes.

13 de junho de 2009

Razões…

Fecho-me em mim, bem no fundo do meu ser e encontro isto: estou vazia! Oca porque não me tenho a mim ou porque tu já não te encontras cá?

Apenas diminuo as lanças afiadas e viajo… Vou encontrando minúsculos pedaços de um eu, ouvindo vozes, percorrendo labirintos. Esta gente que fala sem saber o que diz! Quero não me deixar lesar mas no fim de contas elas prejudicam demasiado, cada vez mais. Vão transformando o que sinto, a poucos e escassos pronunciares. Destroem cada pedaço do meu ser, espalhando-os por quilómetros de sentimentos.

Sentimentos?

Há ocasiões em que igualmente planeava não sentir, negar o saber, encontrar-me completamente despojada, roubada de mim. E num ápice tudo vai… O que se edificou, desaba por um sorvedouro onde a negrura prevalece. Talvez tudo o que se arquitectou não fosse assim tão sólido como previa, como prevíamos. Não detínhamos ninguém, nenhuma alma nos iluminava o caminho. Pequenos diabos só distanciavam, as trevas nos agasalhavam de temor e as flores iam prometendo um mirar sínico.

As forças esvaeceram, lutar não é jamais a minha metrópole. O meu centro vital já não bate para viver, apenas sobreviver! Agora não articulo: suspiro. Detenho um medo miudinho, delgadinho como um fio de água percorrendo o rosto. Aqui, conhecia o brilho de um sorriso mas agora também sei olhar lamentavelmente o firmamento.

A chuva branqueia-me a alma, causa o teu despertar. Cada gota que me bombardeia é mais uma razão para viver, para vivermos. Coberta de causas, respiro fundo e os pulmões experimentam delicadamente as carícias do ar.

A paisagem me questiona, considero-me inútil, medito nas minhas importâncias e nasce um sorriso. Aprender a preferir, diferenciar, fundamentar… saltito pelos segundos, cabeça erguida, mão no coração: não vá ele fugir para ti!

10 de maio de 2009

Bons velhos tempos, autêntica idade de criança!

Ainda me recordo, lembranças se ocupam da minha mente e da minha alma saltam gargalhadas ao poder recordar toda aquela imensidão de exultação que por muito que fosse usada, não acabava nem se transformava em algo inferior. Todas aquelas brincadeiras de criança ficarão para todo o sempre gravadas como uns dos melhores momentos da minha incerta existência.

Imaginação criava e ajudava a alimentar os instantes em que nada tínhamos a fazer. Nunca ficávamos sem posto, inovávamos e escolhíamos constantemente como agir ou contemplar o firmamento e as estrelas tão distantes. Sonhávamos ao olhá-los e pensávamos estupidamente como se de verdades absolutas se tratassem. Simplesmente renascia em nós inteligência e ideias evocadas agora e feitos motivos de uma boa conversa. Tardes de Verão inesquecíveis a brincar e imaginar como seria viver num daqueles milhentos planetas cintilantes ou o porquê de não poder ir e chegar bem perto da Lua. Ela encantava-nos, fazia de nós eternas crianças e quando a olho mais e mais uma vez ainda me sinto muito assim: uma eterna menina.

Dias passavam num ápice, juntos íamos ao fim do mundo numa única ocasião. Vagamente me recordo das festas da aldeia. O fogo-de-artifício era o momento que mais ansiávamos . Contávamos todos os minutos até às doze badaladas e por os fim escassos segundos que restavam. Da varanda da casa da nossa avó apreciávamos aquela junção quase perfeita de cores, sons e iluminações. A aldeia resplendecia quando cada um deles explodia, uma circunstância de dia nascia à noite, mais umas dezenas de outras pessoas sentiam não o mesmo mas o quase que nós. Talvez porque já em pequenas tivessem feito o mesmo ou a idade e os tantos anos a apreciar o mesmo fenómeno os tivesse habituado a tal. Quando acabava íamos para dentro, brincávamos um pouco mais e soltávamos mais alegria àquela casa que tanto venerávamos.

Depois apenas acompanhávamos os nossos pais para as nossas dissemelhantes casas e cobríamos as retinas esperando calmamente que o tempo corresse e que novamente se compusesse o dia. E assim como um ciclo sem fim, os dias cessavam e a imaginação não matava a sede de diversão de que usufruíamos. Os animais cantavam connosco e os objectos ganhavam vida à nossa passagem; éramos ressuscitadores de almas mortas e despertadores de vivos espíritos.
Tempos passados contigo, que continuam a passar. Desta vez de uma forma diferente: crescemos, ficámos maiores por dentro e por fora mas aquelas memórias nunca mais serão esquecidas e o rio de imaginação nunca mais será quebrado. De futuro não sei o que nos reserva mas a amizade, uniões de família inquebráveis, são razoes evidentes para continuarmos a sorrir, correr, imaginar e sonhar como sempre fizemos…

3 de maio de 2009

Mundos Mudos '

A esperança deste mundo reside em ti, em mim, em nós…


Tudo quanto sabemos ou alguma vez tentámos construir desapareceu, os projectos pensados e repensados foram engolidos por terra firme e impenetrável, os olhares e sorrisos são agora taxados por cobradores importunos de novos impostos, as lágrimas são contadas uma atrás de outra para que um império seja formado, os gritos de um infeliz louvor foram erguidos enquanto os de pavor foram abafados e retornados até às profundezas deste Inferno. A vegetaçao não mais tem cor, o sol já não brilha nem aconchega com calorosos raios todo este mundo, os senhores do poder estão bem colocados enquanto pobres desgraçados se matam por um bocado de pão. O pão nosso de cada dia repartido igualmente por todos? Quem dera que assim fosse!

Pobres moribundos, mendigos vagabundos igualados a cães esfomeados sem eira nem beira; crianças abandonadas nos dejectos do mundo, culpabilizadas e pagando por erros que não cometeram; epidemias, doenças, gripes, drogas, passadas e transformadas para desgraça de uns e superioridade de outros; guerras e conflitos sem fim que começam por birras e acabam com mortes, se acabarem…; tecnologias que nos fazem ficar tão perto dos outros mas tão longe de nós próprios, amores sumidos, amizades roubadas, famílias destroçadas, pessoas ignoradas, atrocidades cometidas, sangue derramado…

Nascemos tão simples mas com objectivos descomunais, metas a conseguir e território para conquistar, regras a cumprir e pessoas para auxiliar, oportunidades a aprisionar e sonhos a realizar. Nascemos com muitos propósitos e apenas um os resume: Mudar o mundo! Acredito que cada ser concebido a cada segundo passado e futuro irá mudar este ‘beco sem saída’ à sua maneira. Pode mudá-lo a escrever, a pintar, a cantar, a trabalhar, a deslumbrar ou até a pensar mas irá torná-lo diferente do que o que era quando abriu pela primeira vez os olhos.
Também tu e eu devemos alterá-lo, transformá-lo, moldá-lo, fazer dele uma casa para todos, derrotar os grandes, vangloriar os insignificantes, controlar as injustiças, educar os marginalizados, pegá-los a todos por uma mão e fazer deles algo tão bom que também eles perceberão a sua função aqui. Durante toda a minha vida irei transferir todo o meu ser para que esta nossa ‘casa’ se torne a melhor possível para vingar os que já foram, para os que já estão e para os que aí virão.

O que já fizeste para mudar o mundo? Achas que o mundo está perdido? Imagino a tua resposta… Achas que não vale a pena porque ele já está completamente perdido, os humanos não têm mais maneira de se reconverterem e se os outros não mudam, tu também não vais mudar pois és só um e não vais fazer diferença. Só te digo isto: soma-te com os outros e sereis milhões; agora já não és só um. O mundo não está perdido como pensas, ainda não se descortinou e com pessoas como tu nunca se irá algum dia avistar…

27 de abril de 2009

No fim do mundo…

No fim do meu mundo, tudo o que conheço desaparece. As memórias de um destino que tracei, as ilusões de emoções que sonhei, as pequenas formas de uma escultura que eu própria moldei esvaem-se por um afluente sem foz de tempo e nada. E tudo quanto tenho inscrito na minha falsa memória escorre por horas que jamais alguém conseguirá esgotar, por minutos que nunca ninguém conseguirá evaporar, por segundos que toda a gente irá glorificar até ao infinito dos infinitos. Ilusões, que se tornaram em simples maneiras de fugir à realidade por vezes tão cruel e difícil de aceitar. Sonhos, que já foram mais do que o que são; agora uma pequena tendência os orienta pela pratica e jamais como antes apenas pelo pensamento ignorante de então. Memorias, que ficaram mais do que gravadas neste (in)útil cérebro digno de orgulhos pelo hoje e espero pelo sempre. Tempo, que se foi e se vai e volta às origens moribundas de onde foi permitido arrastar sentimentos e abanar corações.

No fim do meu mundo, não há promessas incompletas. Existem apenas juras de amor que à muito foram esquecidas por um vento mortífero e que os fez descansar em paz. Juras de amor: promessas delicadas e macias, rejuvenescedoras da alma e do coração. Promessas, que quando feitas nunca eram quebradas nem com pingas de água erosivas de pedras duras como diamante. Juras, feitas por apaixonados loucos debruçados de joelhos cumprimentadores de solo. Promessas e juras que só a morte podia quebrar e quebrou. Um leve sopro de ar maldito bastou para que todo aquele amor prometido se desmorona-se e caísse no esquecimento dos vivos e dos mortos. O amor que se sentia, e ternura e amizade desde então não foram os mesmos. O que se observava ou sentia melhor dizendo, eram pequenas sensações dadas pelos sentidos que nos reconhecem como seres sensoriais, únicos e suficientemente inteligentes.

No fim do meu mundo, só há mentira porque a verdade longe lá vai. As bocas coscuvilheiras teimam em lutar contra um silêncio, cura mais que perfeita para este tipo de falares. Verdade que foi e que não é, que à muito lá vai mas que não reconhece o caminho para uma tão desejada chegada. Bocas que falam e teimam em não fechar, em continuar com as mesquinhas mentiras que tanto são agulhas penetradoras de mente humana, assassinas esperando pelo melhor momento para atacar a presa mais fácil. Mentiras, que com o passar do tempo foram idealizadas como padroeiras de bocas de gente ingrata e infeliz com a vida que lhe foi concedida. Um dia, a verdade voltará e os falares alegres e animadores da alma ressuscitarão e com eles trarão a gente boa. Gente, que apenas falará a verdade e só a verdade até que a morte lhes tire o ultimo suspiro.

No fim do meu mundo, não há perfeição; apenas uma imperfeita noção de saber. Saber, que se interioriza tomando posse de alguém, parasitando positivamente ou não quem o transporta. Será que dominamos o saber? Definitivamente não. Não, porque existem perguntas às quais não encontramos respostas. Respostas que teimam em não aparecer; respostas que apenas se sentem sem que nunca sejam comprovadas; respostas desejadas por perguntas sem fim algum. Não sejamos fúteis nem superficiais. Entremos pela raiz das coisas, filosofando. Nem um tudo do planeta que nos prende a um mísero chão sujo e pecador que arde em frente dos nossos olhos e faz flamejar a alma, conseguirá num momento oportuno encontrar uma desejada resposta a uma aleatória pergunta. O que existem são hipotéticas teorias que nem são chamadas como verdadeiras ou falsas. Apenas como validas ou inválidas.

No fim do meu mundo, o céu cai e o telúrico ascende ate ao infinito. As raízes das árvores debruçam-se dançando ao som do vento. O dia e a noite alteram-se como se brincassem a um jogo de sedução perfeita. Tudo contradiz as leis da Física, leis que não podem ser quebradas sem que o caos se instale e tome conta do que lhe rodeia. Mas não. Embora tudo estivesse ao contrário e as leis da Física fossem simplesmente um saber errante, a calma e a paz mantinham-se. Vivíamos agora num grande buraco, numa enorme esfera oca. Por fora, lavas ardentes ferviam e borbulhavam dando aspecto infernal a quem realmente não o possuía. Por dentro, a serenidade reinava, as águas escorriam por curvas telúricas superficiais e por falhas que faziam das gotículas, abióticos com suicídio inadiável.

No fim do meu mundo, eu não sei de ti e tu de mim não sabes. Somos como pessoas com partes trocadas; é como se possuísses a parte lógica e eu te possuísse a emocional, obrigando-me a pensar com o coração e não com a cabeça, a ignorar a parte pura da minha razão e sujeitando-me a intervenções da tua parte sensível. Sou um ser pensante, errante e extremamente lógico. Ou pelo menos era. Agora, dou por mim leve demais, a parte lógica que possuía me foi retirada e trocada por supérfluos sentimentos que me fazem fraca mas única na minha pobre existencialidade. Um ser que pensou e que sente… Sofre por quem não deve e despreza o que lhe é fundamental, comete erros. Já me decepcionei com pessoas que pensei nunca me decepcionar, mas também já decepcionei alguém! Já amei e fui amado, mas também já fui rejeitado, fui amado e não amei... Magoei-me muitas vezes, já chorei a ouvir musica e a ver fotografias, já liguei só para ouvir uma voz, apaixonei-me por um sorriso, já pensei que fosse morrer de tantas saudades, e tive medo de perder alguém especial… Mas ambos somos assim minúsculas marionetas capitaneadas por forças superiores que nos concedem liberdade, direito de escolher entre a virtude e a imperfeição.

Basicamente, no fim do meu mundo não existe absolutamente nada além de muita imaginação que faz com que ideias tão distantes possam chegar tão perto de mim. Imaginação, que faz de mim o que sou, o que instruo e construo, que me possibilita ir a lugares longínquos sem que do sítio me abstraia. Imaginação, que me permite voar e autoriza pessoas como eu a escrever textos resumidos a falar de Homens e do que por estes é possuído. Neste fim do mundo, existem os Homens e o resto das coisas, o Ser Pensante e o que lhe está ao serviço. Estes homens e mulheres de que falo pensam ter poder sobre tudo o que os rodeia apenas pelo simples facto de possuírem uma razão que os orienta e nos distingue da (ir)racionalidade dos animais. Agora pensemos. Existirá algo superior ao Homem? Aqui têm uma das respostas: se não houvesse coisa superior ao Homem, este saberia tudo o que há para saber, alcançava a tão desejada perfeição divina e teria poderes extraordinários. Também podem escolher outra. Dêem asas à vossa imaginação e voai… Eu, fico-me por esta pois é no que acredito que seja verdadeiro.

25 de abril de 2009

O que sou…

Eu?
Eu sou como o vento: nunca paro.
Sou como os pássaros: livres e sem destino.
Sou como a água: límpida e fresca.
Sou como as montanhas: altas e esguias.
Sou como os cofres: guardo safiras e rubis.
Eu sou o que sou e não me peças um modelo porque eu sou única.
Quando me olhas de lado, sabes que sou o que nunca serás;
Quando me magoas, sabes que não vou cair
E se o fizer levantar-me-ei sempre.
Quando eu te peço ajuda e tu simplesmente me ignoras,
Seguirei sozinha o caminho.
Quando ficas feliz com os meus erros,
Podes vangloriar-te à vontade: são apenas pequenas falhas.
Quando me ignoras e isso te faz sentir bem,
Lembra-te que também serás ignorado.
Podes tirar-me tudo o que tenho,
Tudo o que mais amo e sem o qual não suporto viver.
Mas não me tiras o que de único existe em mim,
Que mais ninguém à face da Terra possui: o que fui, sou e sempre serei.
A minha arte de viver, os meus gestos,
A minha personalidade, as minhas parvoíces, o meu próprio “eu”
Isso tu não me podes tirar.
Não me invejes nem cobices;
Não me desejes nem me anseies;
Não me critiques nem me afundes no oceano,
Pois nunca serei o que queres que seja.
Deixa-me!!!
Não me prendas mais.
Não quero que me possuas, não quero que me magoes,
Não quero que me faças cair, não quero que me critiques.
Apenas que me completes, que me causes felicidade,
Que me ajudes a levantar, que me construas,
Que me libertes do escuro do oceano.
Não quero saber o que pensas de mim,
Se gostas ou não de como sou ou deixo de ser.
Só sei que falas de mim, logo importas-te comigo!
A tua opinião só me importa se for para me construir.
Se o que queres é destruir-me, o teu conceito de mim pouco me interessa.
Da inveja faço um degrau e das pedras que me atiras
Farei um grande castelo que me protegerá.
Deixa-me voar livremente, desvendar conhecimento que não possuo,
Pairar sobre os Humanos e o resto,
Preencher as fendas do mundo com algo benigno e inestimável.
E o mais importante: deixa-me ser “eu” à minha maneira e não à tua.

28 de setembro de 2008

Contigo!

Estava ali. Sabia que lugar era aquele mas tinha a imperfeita memória a esconder algo tão terrível mas tão suave. Olhei para todos os objectos à minha volta. Não sei se era eu que os temia ou eles que me temiam a mim. Estava escuro. A noite cerrada implorava por um raio de luz, escassa e quase inexistente.
Sozinha, buscava o nada. Nem eu própria sabia o que queria para mim. Só tu sabias o que o meu coração tanto ansiava. Tu tinhas partido para longe embora continuasses ali tão perto. Tudo em meu redor era conhecido por um “eu” que eu não conhecia. Tudo o que sentia naquele momento tinha desaparecido. Vi quase tudo evaporar no ar, a subir naquela imensidão de nada. Eu e aquele meio nunca iríamos entrar numa isotonia perfeita. Enquanto aquele lugar estava numa hipertonia sentimental, eu era completamente hipotónica no sentir.
Tínhamos de ser iguais, de encontrar uma isotonia completa e interminável. Enquanto que as minhas raízes não fossem desligadas da terra ninguém me arrancaria nada de nada. Algo me puxou a caminho da altitude. A gravidade tinha simplesmente desaparecido e tudo o resto se foi, seguido a ela. Já não havia uma força maior que controlasse os objectos daquele lugar. Agora, o espaço antes organizado era um campo de batalha bárbaro: cruel, desumano. O que de mais selvagem havia em mim se libertou. As barreiras da cultura em que me tinham obrigado a viver e a respeitar soltaram-se e levaram com elas as hipotéticas regras.
A isotonia proporcionou-se. Ficámos iguais por dentro e por fora. Sentia-me vazia agora. O exterior estava extremamente plasmolizado e a minha turgidez interior não suportou tal facada. Esse momento de libertação foi o mais único visto pela minha inútil existência. Nunca antes me deparei com tanta rebeldia. O mar que me atravessava se transformou num pequeno ribeiro. A biodiversidade foi levada e desaguou juntamente com tudo o resto.
Eu não estava naquele lugar para me tonificar e muito menos para me purificar. Ia intervalando a caminhada por ruas e becos sem saída. Conhecia aquilo como a palma da minha mão. Talvez aquele lugar fizesse parte de mim sem que eu desse por isso. Cansei-me de tanto percorrer e não chegar ao destino; de tanto procurar e nada encontrar; de tanto subir e não contemplar o cume. Sabia exactamente o que fazer. Sentei-me, encostei a cabeça e sem dar por nada, adormeci. As lanças protectoras dos meus olhos baixaram como se quisessem fazer uma pausa naquela guerra. A paz entrou em mim. Toda aquela rebeldia já não me era perceptível; a gravidade tinha voltado; os objectos retornaram para o seu eterno lugar e o campo de batalha parecia agora uma imensa planície coberta de erva verde e de arco-íris.
Só que eu não conseguia perceber uma coisa: a isotonia continuava intacta. O meu interior e o meu exterior continuavam iguais quantitativamente. As substâncias não eram mais heterogéneas. Tudo era homogéneo e perfeitamente semelhante. Mas… O que tinha acontecido para que tudo ficasse tão bem de um momento para o outro? Gritei a questão com tanta força que a minha voz quase perfurou o infinito. Despendi toda a minha energia pois queria muito aquela resposta.
As lanças que antes tinham baixado ergueram-se porque algo de muito luminoso me estava muito próximo. Mas não se alçaram para declarar guerra. Altearam-se para proclamar a tão desejada vitória. Por surpresa minha, os meus olhos viram o que eu mais queria: tu. Foste tu que vieste acabar com a rebeldia do meu mundo. Foste tu que repuseste os objectos no seu lugar. Tu, que criaste a isotonia perfeita de que eu tanto precisava. O meu interior e o meu exterior estavam agora em harmonia. Como conseguiste que tudo em mim se repusesse? Será que tens assim tanto poder sobre mim? Assim como fizeste que tudo se alterasse e ficasse desorganizado também conseguiste que a calmaria e a harmonia voltassem.
Uma brisa percorreu todas as curvas do meu rosto secando as pequenas gotas salgadas que o cobriam. A tua mão segurou a minha e uma força tremenda me foi transmitida novamente. Toda a energia que desbastei em perguntar-te o “porquê” de tudo e de nada foi-me agora retribuída por ti. Toda essa alegria me foi reposta outra vez. Fizeste com que o nosso tempo se perdesse mas que o meu ser ganhasse vida novamente.
Quando os teus olhos iluminaram os meus eu fiquei presa nesse teu olhar penetrante. Olhavas-me tão fixamente como se os meus olhos fossem preciosos rubis, como se nunca me tivesses visto antes. Tanto tu como eu estávamos encantados um no outro. Mais nenhum ser daquele lugar era tão parecido a mim como tu. Eu estava ali contigo. Não sabia nada de nada mas sabia tudo o que necessitava de saber: nada. Também não demorei muito a compreender, pois tu disseste tudo aquilo que de importante havia para falar.
Enquanto a balbúrdia acontecia e eu era arrancada das minhas raízes, das coisas que amo e sem as quais não suporto viver, tu estavas escondido atrás de uma alta parede bem na escuridão a observar tudo aquilo. Quiseste ajudar-me e sabias exactamente como fazê-lo. A única coisa que confeccionaste foi um raio de luz que o lugar precisava para voltar ao que era antes. Essa luz foi criada por ti, pois a verdadeira luz eras tu e só tu. Reparei que contigo trazias um cesto, um cesto que parecia pesado pois a marcas da tua mão transmitiam-no. Olhas-te para mim mais uma vez e disseste-me: “Vem comigo!”
Eu fiquei estupefacta. Nunca te imaginei a dizer tal coisa. Não pensei nem por um bocadinho. Tu eras a minha certeza, a minha ilusão, a única coisa que me fazia sentir feliz naquele lugar tão distante de mim mas tão perto de ti. Levantei-me. A minha força estava novamente dentro do meu ser; esta que me fez pegar na tua mão e dizer um aberto e convicto: “Sim!”. E assim fomos, de mãos dadas descobrir o nosso destino. Desconhecíamos o que viria e o que iria surgir ou acontecer a cada passo que dávamos mas, mesmo assim, não tínhamos medo. Caminhámos e progredimos juntos por aquelas intermináveis planícies cobertas de ervas clorofilinas e de flores com mil-cores. Não estávamos sozinhos mas também não conseguíamos avistar ninguém. Não haviam montanhas, planaltos, cumes, nada mais alto que o normal. Seria por isso que não víamos nada nem ninguém a não ser a infinita planície?
Não sabíamos nada. Apenas tínhamos uma certeza: eu estava contigo e tu estavas comigo. O tempo passava e as nossas mãos continuavam unidas, com uma ligação cada vez mais forte. Éramos imortais agora conectados. Éramos como se fôssemos um só. Nada do que se atravessasse no nosso caminho nos conseguiria separar. Juntos, ultrapassaríamos tudo, tudo. E não nos largávamos. Nem nunca nos viríamos a largar pois éramos tão imortais juntos e tão mortais separados. Algo de muito forte nos unia e uma atracção gigantesca nos impedia de separar. Embora não fôssemos obrigados a estar adjacentes e pudesses ser livres a esse ponto ambos sabíamos que juntos éramos muito melhores e muito mais fortes. Então encontrámos apenas uma resposta: continuámos naquela desgastante caminhada na planície como seres completamente imortais e sempre os dois, juntos e eternos inseparáveis ligados por algo maior que o Sol e mais forte que os deuses.
Mas como nada é infinito e nada é imortal, o fim chegou. O nosso desfecho estava próximo. Não queríamos seguir caminhos diferentes; apenas desejávamos continuar juntos e permanecer imortais até ao infinito. Este infinito de que falo já não existia mais. A força que nos unia era agora igual à que nos afastava. Não sabíamos o porquê, não sabíamos como aquilo tinha acontecido. Afinal, desconhecíamos aquela situação tão inóspita, tão bárbara. Quem nos tinha causado tal sofrimento? Não queríamos saber. Talvez porque não sabíamos nada ou porque era melhor continuar naquela benéfica ignorância. Tínhamos feito uma promessa: nunca nos iríamos separar e unicamente a morte o poderia causar.
E assim foi. De um lado, existia a gigantesca força que nos unia; do outro o dinamismo colossal que nos separava. Não podíamos dar-nos como vencidos. Lutávamos e lutámos até ao fim. Um fim que demorou a chegar mas que finalmente chegou. Cada vez mais, à medida que o tempo passava a força de separação era maior à de união. Com a perfeita noção da situação e sem comprometer a promessa, olhámo-nos uma última vez. Transmitimos pensamentos pelo nosso contemplar e a decisão tomou-se definitivamente. Dissemos um adeus que mais significava um “até já” pois tínhamos esperança de nos encontrar novamente.
Juntos, saltámos para o meio das forças contrárias. Era tão terrível a disputa que isso nos despedaçou. Num abrir e fechar de olhos, já não existíamos mais. Tínhamos partido para outro lugar, outra situação, outros destinos. Só temos orgulho um do outro por nunca nos termos largado e por assim termos partido. Tenho esperanças em encontrar-te novamente onde quer que estejas. A minha boca não se cansará de invocar pelo teu nome, a minha memória não se estafará de te lembrar e os meus olhos não pararão de ver para avistar a tua chegada.
Já não sou mais o ser imperfeito que conhecias. Tu também já não deves ser o mesmo. Fui transferida de mundo como se me tivessem feito uma transfusão de mente e de alma. Afinal não expirei, apenas me alterei ou me alteraram. E sei que tu também não te finalizaste nem ninguém te finalizou. Agora tenho asas; as minhas feridas sararam e a minha pele está limpa de cicatrizes; os meus cabelos são longos e encaracolados; a minha mente sabe muito mais do que sabia e a minha alma já não sofre por coisas inúteis. Só sofre por ti e anseia a tua chegada que estará próxima.
Não avises os deuses, nem os anjos nem nenhum demónio. Quando vieres novamente para mim quero que dês um silencioso grito. Mais ninguém o ouvirá a não ser eu. E aí, eu irei ao teu encontro para que não sofras mais no caminho e para juntarmos novamente as mãos e corrermos numa interminável planície.