Lírico

A minha foto
Greenland
Toda eu sou alma. Todo eu sou frio, branca como a neve. Toda eu sou sonho, céu, nuvem. Toda eu sou girassol. Toda eu serei tua, se assim o entenderes.

13 de abril de 2014

Ouvi dizer



"A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura.
Ora amarga! Ora doce!
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura."



Ornatos Violeta, Ouvi Dizer

4 de abril de 2014

Até sempre


Um grande Senhor, daqueles com letra maiúscula. Quem assim viveu, não é esquecido. Obrigada pelo radialismo, pelo jornalismo e pelas traduções. Obrigada pela prosa e pela poesia. Fica "a cicatriz do ar" e outros, nem sempre a lápis.


Jorge Fallorca (1949-2014)

15 de março de 2014

Teórica pura



E se um dia o mundo for apenas um lugar longínquo? E se um dia esse lugar acabar por ser muito mais que apenas um mundo?

A tua camada espessa e opaca não me permite verificar a existência do que quer que seja. Porque tens de ser assim? Desculpa perguntar, jurámos que não haveriam tais interrogações. Mas que devo eu perguntar e porque estou a desculpar-me? 

As pessoas não deveriam prometer aquilo que sabem que não conseguirão cumprir. O problema é não estarmos minimamente conscientes das nossas escolhas e desconhecermos, até num futuro próximo, o desígnio da mente e da alma. Questiono-te não pelo prazer de te ver às aranhas sem saberes o que dizer mas pela simples busca de respostas, desejo único da própria pergunta.

Há um propósito que sobressai aos inúmeros apelos da minha curiosidade: perceber os teus limites. Mais do que ter conhecimentos dos nossos pontos fracos, poderíamos obrigar-nos a entender as fraquezas alheias. E nisso, foste de uma mestria incrível.

As pessoas alteram-se constantemente, num ritmo ainda mais acelerado que o eterno enamorar da Lua sobre a Terra. Isto é o que vemos nos livros, teórica pura. A prática começa quando obtemos dor a partir disso. Experiências laboratoriais quotidianas que acabam em explosões de tamanho considerável.

Mas teremos de aprender a soletrar, ir indo ao som do vento, tendo paciência ao absorver a chuva e acabar por sorrir, mesmo que seja só por dentro.

14 de fevereiro de 2014

Rios de tinta



Os sonhos são rios de tinta que percorrem todo o meu corpo e me mantêm o coração palpitante. E é o ânimo, toda esta vontade de viver tanto sem porquês, é a paixão por aquilo que ainda não vi que me consome e atormenta! Mas vem o medo e destrói esta ânsia de percorrer mundos, chega a dúvida e há algo que morre e se esvai como uma onda acabada de esmorecer na areia.

Quero desfrutar de outro Sol, do outro lado lunar, de diferentes oceanos e perspectivas de céu. Anseio o que não tenho graças à estupidez causada pela minha insegurança. Um dia, tudo terá mais luz e o viver despertará a mais pura felicidade. É tempo de mudar rumos, traçar caminhos, esquecer que o passado alguma vez me aproximou de tamanha podridão; é necessário rasgar este vazio na alma que me prende de ser livre.

Mais uma vez, desejo voar sem nunca levantar os pés do chão, dormir com os meus olhos bem abertos e viajar olhando os teus. Percorrer o mundo é um sonho, procurar uma razão de existir é querer ser diferente.

E eu quero tudo contido num pedaço de absolutamente nada.

Quadro de Leonid Afremov

8 de janeiro de 2014

Moon river





Não há nada pior do que vaguear. Ou melhor. Ter um rumo é péssimo. Ou essencial. A rotina cansa. Ou é apenas uma questão de perspetivas. Os opostos são intrigantes. Ou simplesmente são o que têm de ser. E agora?
Considero-me uma pessoa miserável. E pior do que isso: sei que, infelizmente, no fundo, todo o mundo o acha também. Não por palavras, essas quase nem compreendo. A arte da comunicação verbal não se propaga em pessoas como eu. Mas por gestos. Aqueles olhares reprovadores são a agonia da minha curta (espero) existência. E tudo porque o meu teto é o céu enquanto o teu é apenas um frágil véu quebradiço.
Um dia, ele irá partir. Com ele, levará quase tudo o que és, quase tudo que chamas teu. E eu, erguerei os olhos e contemplarei o magnífico sol a bater me na face. Oh, meu céu, meu teto, meu lar, minha guia, minha inspiração, tão luminescente durante o dia e tão enigmático à noite, ao luar.


Um sem abrigo ao abrigo da Lua

Bernardo Mundo-ao-Léu

4 de janeiro de 2014

Permeabilidade



É tudo tão frio e inocente, tão triste e confuso, tão paradoxal e sem brilho... Ninguém ouve, ninguém vê, já ninguém sente. Olho à minha volta, bem em torno do Sol que nem existe e rodeio-me de pequenas esperanças que se esvaem num só instante. Afinal não. Nada se infiltra em mim. Estou impermeável.


Quadro de Leonid Afremov 

3 de janeiro de 2014

MMXIV


Que 2014 traga tudo aquilo que 2013 não trouxe e que leve o que está a mais.

Bom Ano!

10 de dezembro de 2013

O sabor do alheio

       





          "Eu falo das casas e dos homens,
        dos vivos e dos mortos:
        do que passa e não volta nunca mais...
        Não me venham dizer que estava materialmente
        previsto,
        ah, não me venham com teorias!
        Eu vejo a desolação e a fome,
        as angústias sem nome,
        os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
        das vítimas.

        E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
        uma insignificante parcela da tragédia.
        Eu, se visse, não acreditava.
        Se visse, dava em louco ou profeta,
        dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
         - mas não acreditava!"

        
        Adolfo Casais Monteiro
        Quadro de Vincent van Gogh, Cottage with Peasant Coming Home

11 de junho de 2012

Sapiência




“Sabes, por vezes acordo, bem de manhãzinha, olho o relógio e o Sol que me entra pela janela e digo: “Que belo dia!”; ao deitar, penso: “Porque acordei sequer?”

Há dias em que até respirar dói, até o ar corrompe. As nuvens não estão suficientemente negras para que me possa expressar. Queria dormir, dormir, levitar, deixar-me ir num sono profundo, acabadinho de morrer, até ao infinito, acordar lentamente, daqui a milhões de anos, talvez mais. E que chova! Oh, o quanto eu quero que chova! Ninguém notaria o meu rosto já cheio da tristeza do outrora. Não me perguntes por mim, não te sei responder. Não quero estar aqui. E caminharei, voltarei, um dia, apenas talvez.

E me calo e me canso de profundamente tentar explicar o que jamais alguém conseguirá perceber. Sou eu, eu num eu que eu não conheço, disfarçada de ti, fugindo da luz que me tenta aquecer.”

Inácia Amarguras

7 de abril de 2012

Delírios intersticiais



“O fim é desespero, o desespero é medo, o medo é tudo e o tempo é escasso. Choro pelos cantos que não são mais que ninhos de deprimência convidativos a desaires humanos. Choro e solto o mais leve gemido, uma dor miudinha mas constante que não desaparece, não abranda, sempre incomoda. Estive, estou mas não mais estarei. Tudo é cansaço! Os meus olhos ardem como bolas de fogo vermelho, do mais incandescente que alguma vez vira. Não sinto as mãos, nem imagino o que me está a fazer escrever como um louco, um irracional consciente dos actos que não fez, não fiz, nunca faria, isso.

              O contraste entre espaços vazios se foi, a noção de profundidade é algo passado, passageiro, deveras momentâneo, os contornos ficaram menos nítidos e neste momento não consigo nem diferenciar as minhas personalidades. Escrevo, escreverei. Rabiscarei até que a fome me mate e o ofício me queime as pálpebras; um dia, terei uma casa feita de papel, de todo aquele que espezinhei e torturei até à exaustão com a tinta azul e preta, por vezes prateada. Não sinto, não posso, não mando.

              Hoje quero apenas ir por onde nenhum ser humano desejaria, pisar os caminhos pestilentos e envolver-me na lama. Conservar-me até que toda a Humanidade desejasse viver em paz pelas épocas que entretanto colapsaram. Não tenho qualquer esperança. Nunca haverão almas suficientemente capazes de trazer ao mundo a resolução de todos os problemas. Isto porque terá de assim ser. Teremos de nos arruinar, uma, outra, milhentas mil vezes. E não aprenderemos. Continuará a ser a mesma guerra, os mesmos motivos, a mesma dor, o mesmo ódio e raiva e vingança e sede de poder.

              Não sei escrever, deixei até de saber contar. Que dia é hoje? Os anos passam, não dou nem por mim a dormir. Talvez não durma. Talvez não coma. Talvez não exista sequer. Ninguém me vê. Entretanto, passo na rua, não me olham, apressados. Coitados. Não tenho pena deles. Escolheram aquilo em que se tornaram ou alguém escolheu por eles. São pessoas, não merecem nada! Morrerei. E vou com a consciência de que já nada há para fazer. Parem de nascer.

Foste. E ninguém me ensinou a recordar-te.

              E por isso me tornei no que agora não vês. Estás longe, distante dos braços e tão presente em meus pensamentos. Vai embora! Não te quero aqui. Atormentas-me. Deixas-me louco! Revejo ainda o dia em que partiste sem sequer pronunciar um adeus. É tão fútil saber que aquilo que deveria ser verdadeiro, puro, completamente espontâneo é, na verdade, o que nos deseja acabar com o resto dos nossos dias, desaparecer sem deixar qualquer rasto ou ponta de ingenuidade. A inocência acaba quando se percebe o quão cruel é um sonho, a facilidade com que se torna no mais subtil dos pesadelos.

              Deixei de ver. Esmagaste-me os preconceitos, torceste toda a perspetiva criada por mim durante anos. E quero que morras, tanto como eu morri no dia em que me abandonaste. Levaste o brilho, a alegria, tudo o que eu tinha. E agora? Tornei-me num louco. Sim, é isto que a sociedade me chama. E porquê? Porque falo alto e grito e resmungo e canto e digo o que mais ninguém tem coragem de dizer. Mesquinhos.

Antes louco que inútil, diria eu.
Antes assim que simplesmente sim.

Adeus, Brízida.”
Inocêncio

Texto e fotografia: Bárbara

6 de janeiro de 2012

Free soul



A poeira não deixava que o Sol penetrasse na densa selva que seria agora o pensamento de alguém que outrora previa uma atmosfera perfeitamente límpida e habitável. Talvez alguma pessoa se prezasse com a terrível maravilhosidade de soprar, colocar todas as interrogações e incertezas na sintonia de um quase, destruir os fantasiamentos do mais próximo de si, trazendo a interrogação antes perdida, desencontrada como quem adormece distraído em ritmos e melodias. Mas um talvez nunca chega, as dúvidas manifestam o seu desejo em não desaparecer por completo e o dia renasce com a promessa de que nada será fácil, nada é percentualmente espontâneo e a maioria das coisas teima em prolongar a chegada do tão esperado fraseamento, a conjugação perfeita de vocábulos, aquela que irá, agora e durante milhentos dias, conceder a vitalidade à mesma existência mundana.

            Não é ofensa exprimir o que a alma tanto teima em querer. O pecado é a simples personificação da mais rebelde das transgressões, um delito cometido no baixinho tocar de um violoncelo de prata, o perfeito crime coberto com o branco quase transparente, bastante translúcido, do fragmento maléfico e substancialmente nocivo de um ser indefeso. O equilíbrio consiste na junção da frágil postura com a robustez do carácter. E quando as palavras não chegam para estabelecer essa tão esperada proporção, a inteligência rodopia à velocidade estonteante de uma acção reflexa, os membros desfalecem declarando derrota, pois o fraco foi simplesmente incapaz de transmitir o que de forte havia para dizer.

            A culpa é demasiado pesada para se entregar a alguém de braços abertos! Ela corrói, perturba, faz desmaiar a minha lucidez. Que culpa? Não existo apenas eu, decerto não existirá apenas um, há muito para além disso, há ordem, há mansidão, há a tranquilidade que se ganha quando o corpo permite à alma o que ela tanto ansiava por cuspir. Mas enquanto os ouvidos não escutarem o harmonioso compasso de vocábulos ligados por o senão de um sempre, a alma não cuspirá, o corpo se negará à existência e o mundo será apenas o que sempre foi até agora!

[Nada acontece por acaso!
Coisa alguma advirá se não metamorfoseares a ilusão!]

Texto e fotografia: Bárbara

4 de dezembro de 2011

Esquivo


Não posso ficar! O frio congela-me as mãos, vai esfriando cada pedaço de mim que ainda detém algo que palpite, mil corações em uma preciosidade só. Desconheço o facto de estar aqui, noite dentro, especado diante de ti! Lua, fala comigo, escuta as minhas preces já que o Sol há muito que as deixou perdidas no rio do tempo em que me encontro constantemente. Tudo o que quero é dirigir-me pelo próprio pé a uma casa que um dia foi minha, tua, do nosso mais real e imprescindível amor; desejo o quente aperto de um lar, alguém que me olhe amavelmente, sem o desprezo de todos os dias, como se a tristeza e decadência do mundo dependessem exclusivamente de uma coisa tão nojenta, vazia e pestilenta igual a mim.

Moro entre ruas e becos, becos com ruas, ruas sem becos e saídas sem fim de início bem demarcado, que me levam a caminhos sem rumo, com destino às três impossibilidades mor, é sangue, é dor, é saudade. Sou morador do mundo inteiro! O meu tecto muda de cor mesmo sem eu o pintar ou esculpir belas formas que me fazem sonhar. Não tenho lâmpadas, as estrelas encarregam-se de me iluminar quando a Lua executa o seu tão curto descanso mensal. É a terra que me sustenta o corpo, sujo, cheio de frio, um autêntico cubinho de gelo que vagueia sem descongelar, desagregando-se de muitas outras formas. As estações são as únicas que me cumprimentam: o Verão, com sufocantes dissertações sobre o porquê de não ir à praia ou à piscina como toda a gente; a Primavera, com leves e frescas correntes de brisa que me fazem meditar milhentas vezes sobre a vida que levo; o Outono esbofeteia-me com duas toneladas de folhas encantadoras que me tocam, limpando o mais profundo pecado que em mim se aloje; o Inverno, oh… é ele quem me massacra mais, quem me faz falar com a Morte, dando inesperadas quedas, me questiona acerca da árvore de Natal, das prendas, do consumismo, da passagem para um novo ano. Mal ele sabe que o tempo deixou de existir, para mim, à muito, muito tempo!

E assim, sem cessar, sem que a voz fuja descoordenada e perdida em quelhos obscuros, eu pedia a todos os que por ali passavam por um pouco de pão, uns míseros trocos para gastar no supermercado mais barato e reles daquela cidade. Uns respondiam-me com o menosprezo e desdém de todos os santos dias; outros, mostravam a indiferença que lhes estampava a cara de uma extremidade a outra; mas haviam os anjos, aqueles que me davam um sorriso, oh, um sorriso… aquela menina teria a idade da minha filha se hoje se encontrasse comigo, olhos cintilantes, face da seda mais angelical e pura, cabelos demorados, polidos, estremecendo como pasto em campos de seara, me ofereceu o que eu mais desejava: uma visão actual de como seria a minha pequena menina agora, aquela que eu carreguei nos braços durante tanto tempo, que era exactamente a cara de sua mãe, grande mulher, grande pessoa!

Pelo menos o Inverno tem uma ou duas coisas boas: a neve! Ela espalha a pureza pelo mundo, cobre tudo aquilo que não deve ser entendido, assim como agasalhou o cenário mais trágico e impiedoso, algo que nem um milhão de lágrimas varreria. Tudo começa como sendo exemplar, mas até a perfeição é apenas um ideal, e a sujidade espalha-se perfeitamente em cenários claros, a pureza esvai-se… e quando a noite chega, maldita noite, que fiz eu?, coitada, será este, será oeste, onde está o meu norte? É quando o norte e o sul se juntam, é quando o alfa e o ómega se esvaem, a terra e o céu se envolvem, é aqui que tudo se auto-destrói, é aqui que o sonho se forma, é aqui que se observa o poder do Universo sobre os demais.

Somos a partilha, dividimo-nos com todos aqueles que são o que são para nós. Afinal, não somos a criatura que pensamos ser: estamos inevitavelmente constituídos por peças infinitas de um puzzle de outros seres, aqueles que nos fazem sorrir, aqueles que nos magoam e nos largam a mão, os que nos prendem sem deixar cair o que de mais precioso possuímos, os que nos amam, olham os olhos e vêm que somos um dos viventes mais maravilhosos do seu reino. E é assim que as forças vêm não percebo de onde, fazem-nos lutar por não sei o quê, obrigam-nos a conquistar não entendo como e desaparecem não atingindo o verdadeiro porquê. A vida continua, existimos num só, sustentaremos muitos mais, eclodiremos o grande pedaço de existência coberto de pó.

De que nos vale um corpo se a Alma se encontra longe, encarcerada, enjaulada no mais maravilhoso ser que jamais conhecemos igual?

[É de algo genuíno, puro e cristalino,
é de algo que não se vê,
só se sente,
é por Alma que a Humanidade chora!]

Bárbara

1 de novembro de 2011

Sinto falta...


Falta-me o ar, faltam-me os sentidos… agora não falo, não calo, nem respiro ouvindo o fenomenal digerir das nuvens. Falta-me a água, faltam-me as gentes… ontem eram apenas partículas, hoje são moléculas enormes formadas pelas palavras inconvenientes de quem vai e não volta.

Vem!
Falta-me a luz, faltam-me os olhares… desapareceu. Onde está todo esse brilho, tão obscuro, tão fascinante, tão teu? Esquecidos são os pensamentos, duplamente esquecidas as promessas. Amanhã nada prometerás, é nada, é tudo, é promessa, é assim: incerto!

Vem, por favor, vem!

Falta-me o ritmo, faltam-me as melodias… é vazio, não te propagas, escusas de tentar, voltar a tentar e tentar outra vez. Não. Liberta-te do que facilmente aprendes, descoordena as orientações que parecem já certas, ultrapassa os limites e agita o chão.

Porque não vens?

Falta-me a terra, faltam-me os costumes… falam, praguejam, os latidos soltam-se em frequências incertas que nem a imaginação calcularia. Não estou no sítio certo, não pertenço aqui. Serei um só, vários aspectos em linha recta, miscelâneas de vozes sem ser nem existir ou um palmo de poeira esvoaçando em pleno Verão?

Não venhas…

Falta-me… o que me faz tanta falta, afinal? E repito, uma, duas dúzias de vezes o mesmo. Pergunta, perguntinha, que fazes tu dentro do meu pensamento? Porque me corrompes as ideias e me distrais do mundo?

Vai!

Afinal, afinal, mesmo no final, nada do que me falta se consegue dispor diante de mim. O que faz falta é o mais relevante, agora. Daqui a milhentas fracções de segundos será uma minúscula recordação. Falta-me o Sol, faltam-me os reflexos, falta-me o “eu”, o “tu”, o “aqueles” e o “nossos”. Faltam-me os verbos, as conjugações: Falta-me a Poesia!

Finalmente!

Nem tudo pode ser de quem um dia espera o mundo. Nem nada é dado a alguém que por tempos infinitos se debruça sobre o mar e lhe pergunta qual será a grande mudança. Nem todos conseguem estar, ser, ficar, permanecer felizes!

Eu sou feliz!


Texto e fotografia: Bárbara

23 de outubro de 2011

Bocados do nada que há em mim


Corro,
Saltito entre ideias,
Busco o que de melhor há em mim.
Não te encontro; sonolenta, uma voz me chama
E caminha lado a lado com meu e apenas meu pensamento.
Sofro por não chover e transmito sensações;
Suspiro a brisa que me apresenta
Mundos novos e ideais
Defuntos.
O caos…

Será?
Tudo evaporou,
Se infiltrou em terra
Firme como rochedos perdidos.
Montanhas desaparecem a cada milhão,
A cada lento movimento teu. Desprendo-me
Rapidamente do que alguma vez cheguei a conhecer.
Quero esgotar as palavras, os termos
Que alguma vez aprendi.
Desaprender!
Sumir-me,
Voar…

Vê,
Sente,
Observa,
Abre a mente,
Encontra-te na imensidão.
Repara na transformação que causaste em mim.
Revolto-me? À tua espera, outra vez, deixo-me ficar quieta,
Imóvel, desperta.
E quando nada me ocorrer, voltarei a mim;
Conquistarei os rios e lagos: o Universo!
Sentar-me-ei,
Serei eu mesma noutro alguém:
Um bocado de nada…


Texto e fotografia: Bárbara

19 de agosto de 2011

Salvação



O vento passa e foge de mim. Não quer vibrar por entre os meus cabelos e sussurrar junto dos meus ouvidos. Não me deixa respirar. O Sol decidiu que não mais me iria iluminar, ia descolorir a cor dos meus olhos e aquecer o mínimo possível, para que eu congelasse. As árvores param de falar entre si, como se eu fosse contar ao mundo os seus segredos. O céu enche-se de nuvens do mais cinzento que consiga existir. O chão treme para me fazer cair, só para que eu perceba o quanto não posso mudar nada. O horizonte escapa-se para o infinito. O que estou aqui a fazer, afinal?

Às vezes uma palavra não chega, um sorriso não faz a diferença por si só, um olhar não diz tudo, a música fica de braços cruzados, indiferente, e os gestos são escassos, irregulares. Já não sei o que fazer nem o que deixar aos outros fazerem por mim. Quero tudo e não quero nada. Não sinto. A Natureza está finalmente a pronunciar-se. Colocou-me de castigo para que eu aprenda que sozinha não farei muito mais que grãos de areia, pequeninos, redondos, propícios a erosão rápida. Ninguém percebe e também ninguém quer saber. É preferível pensar que está tudo bem. É fácil, é lógico. Mas não é o melhor!

O espelho mostra algo sobre mim que não me diz nada, não me obriga a sorrir. Sinceramente, acho que os espelhos hoje em dia só mostram o que não deveriam apresentar nunca. Aliás, os espelhos nunca desvendaram grande coisa sobre as pessoas. Já não sei escrever, já não sei meditar, não penso nem comento aquilo que transmito. Não falo. Por vezes o silêncio dá-me o que mais ninguém consegue. E é isto: o dia encontra o seu fim, a Lua não pronuncia o habitual “olá”, as estrelas foram de férias, assim como toda a gente.

Como será possível que o Tempo passe tão devagar? Eu compreendo o quanto ninguém te quer compreender. És egoísta, assassino, cúmplice das maiores mentiras. É assim que a maioria das pessoas te vê: um monstro solitário e hipócrita. Dos restantes, alguns nem sequer pensam em ti. Estão demasiado ocupados com o seu quotidiano triste e mesquinho. Outros derrotaram-te e fizeram-te pedir perdão aos céus por existires. Serão para sempre imortais. Mas ainda existem mais, muitos mais. Aqueles como eu, que passam ao teu lado, te oferecem um grande sorriso e te pegam pela mão.

Tempo, dá-me um abraço e leva-me contigo pelo Universo! Vamos viajar até ao inicio dos tempos quando tu, Tempo, ainda eras um pequenino e indefeso bichinho ambulante. Agora que temos a mesma idade já podes pronunciar o meu nome. Começaremos a distribuir alegria pelo mundo.

O dinheiro compra muito pouco. E não é ele que vai salvar o mundo. Somos nós, Tempo!

Fotografia e texto: Bárbara