Lírico

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Greenland
Toda eu sou alma. Todo eu sou frio, branca como a neve. Toda eu sou sonho, céu, nuvem. Toda eu sou girassol. Toda eu serei tua, se assim o entenderes.

1 de setembro de 2009

Vida consumida por ódio, levada pelo demónio!

"Para ser sincera, não tenho memórias. Pelo menos de uma vida. Fui deixada com o mundo no limiar da infância. Não que a culpa fosse deles. Um qualquer embriagado infringiu todas as regras de trânsito. Muito para além dessas simples regras mundanas, cometeu o pior pecado, o maior acto de ignorância! Num segundo a vida lhes fluiu do corpo, um embate os projectou para fora, bem longe dali. Sofri mas ainda sofro!
Era pequena e não entendia muito do que entendo hoje. Posso não ser grande mas sou suficientemente consciente do meu ódio, do desejo que tenho em encontrar por fim esse homem. Esse dia iria chegar… por fim, finalmente chegou. Pude contemplar o rosto descaído daquele inconsciente assombrado por fantasmas do passado, por erros irremediáveis, por um peso na consciência que o acompanhará até ao seu fim! Me implorava por vida, me questionava a identidade, o porquê…
Queria dar-lhe de mão beijada o destino que concedeu a meus progenitores e toda a dor que por mim foi sentida. Fazia-lhe pontaria ao orgão digestivo que jamais iria digerir. Não o mataria de uma vez mas aos poucos… o ácido lhe iria corroer a carne, agonizando-o! Não chamaria isto de vingança, talvez ajuste de contas.
Sentei e observei aquele triste fim. Sentia-me concretizada! Até que a morte lhe transpareceu pelos olhos… olhei-o uma última vez e aí a felicidade escapou-se assim como a vida.
Cheguei ao limite da compreensão, abri meu ser e expandi o olhar: naquele momento foi-me concedido o vislumbrar mais claro de todos. Uma vida não traria outra quanto mais duas! O rio era testemunha de meu acto cruel, a água corria e levava consigo o sangue. Talvez transportasse também meu pecado. A ponte me convidava a subir, o líquido me iludia a mergulhar. Olhei derradeiramente o céu e pedi desculpa aos anjos: perdão pela raiva, pelos actos, pela idiotice… e mergulhei. Morri exactamente como meus pais: um violento embate nos esmagou a vida, nos trancou o coração… "
Açucena escreveu a sua própria morte mesmo quando a vida ainda lhe corria nas veias. Seria por muito pouco tempo. Escreveu, desapareceu e concretizou o fim da escrita, da sua própria história!

2 comentários:

Raquel Granja disse...

Tens um miminho no meu blog :)

Raquel Granja disse...

Esta nos posts anteriores *-*